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Entre costuras e pensamentos

Foi a minha avó quem me ensinou a coser...
Não que se tenha descoberto uma costureira em mim... mas aprendi com ela as bases. Alinhavar, chulear, cerzir. Ensinou-me a fazer o ponto invisível, o ponto cruzado, o caseado...
Dava-me pedaços de pano e restos de linha e eu ficava ao lado dela a praticar, com ar solene de quem está numa tarefa importante. Olhava as suas mãos pequeninas, de dedos ágeis, a remendar a roupa de trabalho do avô, a coser botões nas camisas, a casear pontas de meias... 
Ralhava comigo quando eu atalhava caminho e punha uma linha enorme na agulha: Isso è trabalho à Maria Badalhoca! Faz as coisas com preceito! A linha grande vai enrolar e a costura não fica nada de jeito!
Aprendi com ela a colocar botões... “ Isso são pontarelos! Se dobras a manga vê-se esse ninho de linha!” 
E eu, queria agradar! Queria aprender! E aprendi. Gostava tanto desses momentos nossos!
Sempre que tenho que coser botões nos bibes dos pequenos - e è algo que acontece semanalmente- corto a linha pensando num tamanho que não faça de mim uma Maria Badalhoca. 
E quando calha coser um botão com pressa, deixando a linha a ver-se no avesso, sorrio e penso: aí se a minha avozinha vê isto!
Minha querida, querida avozinha. Passaram 18
dias. Ainda não consigo aceitar que a tua partida foi definitiva. 
Continuas comigo.
Adoro-te!


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