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O Algarve e os algarvios

Fomos almoçar fora. O almoço estava bom. O que me ecoa na cabeça não são as conversas que tivémos, não é o sabor bom do peixe grelhado, mas a postura do funcionário que nos atendeu...  Adoro o Algarve. Não gosto tanto dos Algarvios.  Deixem lá elaborar, antes que me excomunguem.  Sou fã do Algarve. Fã das férias de infância, sediadas em Portimão mas a passear por todo o Barlavento e Sotavento. Gosto das praias, do canto incessante das cigarras, das figueiras na berma das estradas. Há um cheiro muito característico nesta zona e que sentimos assim que entramos em terras Algarvias. Uma mistura do doce das vegetações secas, com o pungente das flores e frutos amadurecidos nas arvores. Isto temperado com a maresia cria uma fragrância que dificilmente se conseguiría engarrafar.  Confesso que a praia é o que menos me atrai. Não as do Algarve em específico. Quem me conheçe sabe que eu, a areia, o vento e a água fria temos uma relação complicada. Há zonas muito especiais onde ...

Quinta feira de espiga

  Há uma semana lembrei-me que se aproximava o dia da espiga. Não sou crente, não sou supersticiosa. Se tenho uma religião é o amor aos meus. E foi pela minha avó que me lembrei do dia. Pensei com mágoa, com uma raiva não direcionada, mas mal contida, que este ano não ia comprar ramo nenhum! Que se lixassem esses rituais pagãos que não têm qualquer sentido ou razão lógica. Espigas em número ímpar para representar o pão e a fertilidade. Papoilas rubras a simbolizar o amor. O malmequer “prata e ouro” para as riquezas terrenas. A oliveira, desejo de paz. O alecrim, para a força.  A videira, a alegria. (E haverão tantas variantes quantas as regiões de Portugal, mas esta é a versão que sigo) No dia de hoje, a minha avó ligar-me-ia. – Hoje é dia de espiga. Eu até gostava de ter um raminho…, mas se calhar já não se veem … E eu diria, como sempre: - Se eu encontrar levo-te um .  E levava. Todos os anos. Às vezes apanhado por mim daqui e dali até ter o ramo feito, outras v...

Ensino à distância - A importância de pedir licença.

11h00. à exceção das casas de banho, há em cada divisão da casa alguém à frente um portátil ligado... Uns trabalham, outros em aulas.    A dada altura ouço os passinhos da  Margarida. "Saiu da sua aula", veio ter comigo e pediu se eu podia ir ajudá-la.  Pedi que esperasse um bocadinho, terminei o que estava a escrever,  levanto-me e vamos as duas para a cozinha, onde ela está a ter aula. - Que precisas?  - Não estou a conseguir ligar o som!-  Ligo o som, ela senta-se, põe o dedo no ar e quando  a educadora lhe dá a palavra  ouço-a dizer:  - Laura! - Posso ir lavar as mãos? E pronto... era só isto. Voltei para o meu cantinho enquanto tento entender...  :P

Balanço de 2020

 Não tem sido um ano fácil, em termos generalistas.      Esta trampa desta pandemia que nos trocou a normalidade e nos obriga a viver num baile de máscaras diário. Gestos que outrora seria considerados uma obsessão compulsiva, são agora incentivados.       Passa gel na mãos, coloca a mãscara, passa gel nas mãos. Passa gel nas mãos, entra na loja, vê, toca (o mínimo possível), compra, guarda as coisas no saco, sai da loja, passa o gel nas mãos. Chega a casa, tira sapatos, desinfeta sapatos, tira máscara, desinfeta e guarda a máscara, tira casaco, desinfeta e pendura casaco, passa gel, cumprimenta quem está. Brinco, mas a brincar toco na ferida, que se não morremos da doença, morremos na cura.       Estes gestos, aparentemente inofensivos, hão-de cobrar o seu preço. Aos poucos, todos nós, uns mais que outros, estamos a ganhar tiques, fobias, manias.  A prometida vacina, que se vislumbra "para breve",  poderá trazer em d...

Os avós é que sabem!

  Maggie entra na cozinha e vê-me a arranjar vegetais para a sopa. -Aviso já que não vou comer essa sopa! Não estás a ligar a avó a saber como ela faz! Inspiro, expiro- Eu já lhe liguei! Estou a fazer como ela disse. A jovem olha com ar de dúvida: - E de certeza que entendeste bem? Olha Maria Ro , estás oficialmente de serviço às sopas, sim?

O chá...

  O chá, para mim, está sempre associado ao conforto do lar, ao carinho, à família.      Às tardes chuvosas ou de frio... a chegar da escola e ter um chá quente à espera, porque la fora estava a chover e eu devia vir gelada.   A estar na casa dos avós e bebermos juntos um cházinho com torradas... eu, sempre com “minha” caneca preferida, que hoje guardo em minha casa com carinho.      Adoro chá.      De todos os tipos.      Mas acho que muito desse gostar vem daquilo que associo ao ritual... este cházinho bebo-os convosco em mente mãe e avó.

Brindemos a Setembro

 Adoro o mês de Setembro. Talvez tenha algo a ver com a ideia de renovação, recomeço.  Novas oportunidades. Setembro traz o fim das férias e o começo de um novo ano letivo.  Um ano para novas experiências. Para fazer diferente. Para ser melhor! Um ano para dar início àqueles planos que deixámos na gaveta, para abandonar de vez aquilo que nos faz menos bem.  Talvez seja o simbolismo, talvez seja patetice minha. A verdade é que gosto de ciclos.  De planos definidos. Setembro é uma marca. E assim tem sido para mim.. A cada ano uma catadupa de planos, uns concretizáveis, outros nem tanto, afluem na minha cabeça e dão origem a listas de coisas a fazer, a tentar, a exprimentar... Este ano não foi diferente! Setembro chegou e com ele novas oportunidades e desafios!  Os pequenos regressam à escola. Também para eles este será um recomeço diferente. (Questiono-me se algum dia tornarão à "realidade de há sete meses atrás"...) Tempo de abrir as agendas e começar! Este ...

Aventuras de uma aquariófila inexperiente

O meu aquário está perto da janela da cozinha. Não é nada de especial. Apenas u m pequeno aquário de 30 litros... Mas, como apanha muita luz, mesmo com o filtro ganha verdete... já testei a batata doce, já testei tapar uma lateral com autocolante opaco... nada ajudou... então decidi comprar umas plantas... Inglória tarefa porque todas as lojas aqui perto estão sem stock de plantas.- culpa da pandemia. - Comprei on-line e marquei ponto de encontro.~ O vendendor, muito profissional, entrega-me solenemente uma garrafa de 1,5l, deitada, cheia até meio com água e as lentilhas de água a flutuar.... a garrafa tinha uma abertura a meio... coisa à pro... Paguei, agradeci e quando chego ao carro, cai-me a ficha:como vou levar uma garrafa aberta no carro? Porque não veio isto num saco ou garrafa fechada? Desenrascada, que é coisa que sempre fui, modéstia à parte, fui buscar dois saquinhos do pão à bagageira e fitacola. - sim, a minha bagageira tem esses artigos e nem vocês imaginam o que mais!...

Snowpiercer - A série vs O filme

 Para quem~devora séries, como nós aqui em casa,às vezes torna-se dificil encontrar algo novo. Há umas semanas surgiu a sugestão de uma série distópica chamada Snowpiercer. Nunca tinha ouvido falar. Assumo a ignorância sobre a existência de um filme antecessor, e, mais ainda, da existência de um romance gráfico na origem de tudo. Foi por isso com uma postura em branco que comecámos a ver a série. Quem me conhece sabe que Sci-Fi não é bem o meu género. O tema não é novo, a terra congelou, a Humanidade pereceu toda, à exceção de um número relativamente pequeno de pessoas que escaparam a bordo de um comboio-arca-de-salvação, desenhado para esse efeito pelo misterioso Mr Wilford, venerado na composição em jeito de divindade. To make a long story short, os passageiros estão divididos por tipo, desde a 1º classe que vive ostensivamente, aos da 3º classe, os operários que mantém o comboio a funcionar com a sua mão de obra e, finalmente, na cauda, os "caudas", passageiros que se infi...

"O tempo entre costuras" - excelente livro de férias

 Confesso que não quis ler o livro pelo renome da autora, ou pela crítica, nem mesmo pela sinópse... Vi-o nas mãos de uma amiga e achei piada ao nome.       Fiquei a antever o que poderia ocorrer entre costuras, que pudesse originar um romance. E da antevisão, passei à leitura.     Nunca tinha lido nada de Dueñas. A narrativa é um  um misto de biografia, romance, suspense, aventura e drama que nos cativa desde o inicio. Gostei muito da contextualização socioeconómica do protectorado em Marrocos, a envolvência da pré guerra civil espanhola, narrada com rigor e displicência ao mesmo tempo, isto é, informando sem maçar. A narrativa de Sira, contada na primeira pessoa,  está escrita de modo a que conseguimos "sentir" com a personagem, as várias aventuras. Apaixonamo-nos com ela, viajamos com ela para Marrocos, sofremos juntas as agruras do seu desalento amoroso.  O livro não é apenas uma história de amor. Sira, a humilde costureira, ass...

Ozzy vai ao veterinário - Ou uma saga trágico-comédia. Parte 1

Ontem encontramos habitantes não convidados, em casa.  É verdade que não ocupam muito espaço, nem sequer são barulhentos. E nada tem a ver com a cor. Mas a verdade é que temos estilos de vida diferentes e prefiro que o Ozzy não se dê com saltitantes seres  sugadores de sangue. Ficou combinado que hoje, quando eu chegasse, o levaríamos ao veterinário para fazer desparasitação e aproveitávamos e tratávamos da manicure do felpudo. Hoje contatei a clinica e marquei hora de consulta. Chego a casa e convido: Meninos, se querem levar o Ozzy ao veterinário vistam-se! Henrique - Espera que estou quase a passar este nível. Margarida - Mas eu não tenho meias!!! Já não tenho meias com laços!  (Se calhar ajudava se não mudasse de roupa 3 a 4 vezes ao dia, mesmo sem sair de casa) A boa da mãe - Guida se não tens dessas calça outras.  Margarida- Não! Só gosto destas! As outras são para dormir! A boa da mãe, inspira, expira.  - Então, calça umas sandálias ou umas havaianas...

15 dias

E ainda não conheço a princesa mais nova. Há 3 meses que não dou um abraço bom na minha afilhada doce. 90 e poucos dias, desde que vi o meu sobrinho... Pensar: "é por uma boa causa"  não me apazigua a alma...

E assim reabriram as creches

Ao fim destes meses em confinamento, sinto que algo começa a estalar em mim. Não um quebrar visível,  não há o som cristalino do copo de vidro que cai da bancada e se estilhaça no chão. Será antes como uma fissura... uma pequenina fissura, que mal se vê, que não deixa verter água, mas que existe, e aos poucos, tenta crescer. Uma fissura que sinto mas tento ignorar.  Não posso dar-me ao luxo de a tornar visível, é preciso continuar funcional. Mas ela está lá. Não todos os dias, não a toda a hora, mas em pequenos gestos ou situações.  Quando toda esta situação nos atirou para casa, numa quarentena generalizada, havia medo, havia ansiedade. Havia toda uma situação desconhecida que destabilizou a realidade conhecída e nos obrigou,  a todos, a descobrir e criar novas regras. Tele-aulas, Tele-escola, Teletrabalho, Família junta 24*7, Famíliares afastados apesar da presença do video. Com mais ou menos resistência, todos encontramos um ponto de equilibrio e, durante semanas,...

E voçês? Também têm o Joel nas mãos?

- Mãe, posso por Joel nas mãos? - Podes, mas não é Joel, é gel. - Não. É Joel! Eu li. - Mostra, Kike? - preparo-me para lhe explicar os valores do G, quando ele me aponta o frasco... <3 O meu menino sabe ler...  ® Joel - Publicidade gratuita..

À espera de C.

Ainda não foi hoje que nasceste pequena C. Nascer no meio de uma pandemia, não estaria por certo no leque de requisitos ou desejos dos teus papás quando planearam a tua chegada.  Mas vais nascer forte e brilhante!  Há quem espere milagres, nós, aguardamos o raio de luz e esperança que és tu, pequena C. Estamos todos, pais, avós, manos, tios e padrinho hiper babado, ansiosos com a tua chegada. Sabemos que a qualquer altura pode chegar a chamada telefónica que nos anuncia que a nossa família ficou (ainda) mais rica e abençoada. Sempre sonhei ser mãe... Sempre amei ser mãe... Não sabia que também se podia sonhar ser tia... Nem sabia que se podia amar tanto como tia... Anda, C.!! Estamos à tua espera!! E o mês de Maio, ganha mais uma razão para ser celebrado! <3

Pára tudo! O R faz anos!

19 de Maio de 2000 Tornei-me tia!  E hoje, embora longe, completas 20 anos.  Tanta coisa vivida, tantos episódios, tanta água passada por baixo dessa ponte, e mesmo assim, lembro como tivesse sido há pouco mais que uns dias, as horas que antecederam o teu nascimento. Apressado, prematuro, sem aviso.  Os sustos, as vitórias, o dia em que te pudémos pegar ao colo.  20 anos. R., desejo-te, acredita, todas as bençãos. Que possas sempre voar ao nível dos teus sonhos. Que a vida te dê as oportunidades para que possas voar e haja sempre uma rede para te apoiar nas vezes em que caires! Sê muito feliz! 

O que esconde um nome? Traumas, parece-me...

Hoje, a princesa M. chega ao pé de mim com uma folha, mostra-ma, e comunica com nariz empinado:  - vou começar a assinar assim! O meu nome é gigantesco! É um pesadelo! Sorri... E recuei cerca de 10 anos no tempo, até ao dia em que um lindo rapazolas de olhos grandes e brilhantes me diz: - Não é justo! Porque é que me deram este nome? O Rui só precisa escrever três letras! O meu nome parece um comboio! E penso... no outro jovenzinho, que ainda não há muito tempo me perguntou: - Oh mãe, agora enquanto são "férias do Corona" posso escrever só Kike no plano diário? O meu nome é enorme! Pobres crianças... Os papás arranjam sempre modo de traumatizar os filhos. Algo me diz que o futuro me deve trazer netinhos com nomes bem curtos ;) Alexandre, Henrique e Margarida, os vossos nomes foram escolhidos a dedo e com todo o desvelo! Juro que não foi para vos martirizar! ;)

5 anos de Margarida

5 anos A princesa da casa fez anos este mês. E, como todos os anos, devíamos ter celebrado com a família, os amigos, os colegas do colégio. Hoje, há 5 anos atrás, o meu maravilhoso mundo azul ganhava laivos de um rosa intenso e cheio de luz. Um rosa vibrante, de som cristalino, que trouxe à nossa família, a peça do puzzle que nos faltava. A princesinha fez anos, mas quis este vírus sem escrupúlos nem respeito, que a data nos encontrasse fechados em casa. Sem escola, sem família, sem os amigos. Acho que me custou mais a mim que a ela. Criança que é, a sua capacidade de adaptação rapidamente ajustou o nível da expetativa e delirou com o bolo pequenino que fizémos para celebrar o dia, com o Balão de hélio e as grinaldas pela sala. Os muitos Beijinhos foram virtuais.  Mas, O ponto alto do dia?! Não foi o bolo, nem as grinaldas, nem mesmo os presentes que recebeu. O delirio (dela e dos manos) foram as três vezes que a campaínha tocou ao longo do dia. Pela primeira vez desde Março, viram...

Quarentena - dia 7

Amanhã será quinta feira dia 19 de Março. Podia ser um post com a referência ao dia do pai. Mas será o dia 7 O sétimo dia de uma quarentena social que estamos a viver. No dia 13 de Março, que por auspiciosa coincidência calhou ser uma sexta feira, o Estado português decretou o encerramento de todas as escolas em território nacional. O país entrou numa especie de letargia em que aos poucos, cada um se recolheu a casa, em família. A noção de se evitar o contato social gerou uma paranóia coletiva em que todos olham os demais como potenciais portadores do virus. Aconselha-se a reclusão social e uma quarentena quinzenal, em casa, atentos a sintomas de risco. Todos são portadores até prova em contrario - ecoa na tua cabeça... Vamos, todos juntos, combater este inimigo! Vamos ficar todos bem! -  As palavras de ordem, os chavões otimistas, não nos preparam para o que o isolamento implica. Que sonho! Poder ficar em casa e não ter que sair! O luxo de poder ter uma quinzena ...

Quarentena #Dia5

Ontem, fui à rua pela primeira vez desde que ficámos em casa. Aparentemente tudo normal. Alguns carros na estrada,nada por demais. A diferença, senti-a quando entrei num minimercado e em cada dez pessoas, nove estavam de máscaras e luvas. Embora tivesse um kit na bolsa, não era minha intenção usar. Ouve-se nas notícias o aviso de que são ineficazes se não estiveres infetado e não queres ser totó. Dei por mim a sobressaltar-me conforme tocava as prateleiras para pegar nos artigos. Olhei de lado para a alça do cesto onde tinha as compras. Quase sub repticiamente, tirei as luvas cirugicas e coloquei-as. Precisei dirigir-me a um funcionário. Fi-lo com uma distância segura, como se o seu hálito fosse laser. Dou comigo a olhar a máscara que lhe tapa a boca e apercebo-me que o deixa desconfortável eu ter os lábios e nariz descobertos. Passo a ser eu o elemento incomodativo. Coloco a máscara, assim que me vejo a sós no corredor. Continuo as compras, entre a sensação de segurança e o p...